Existe uma cena que se repete a cada eleição: o político aparece na cidade, abraça as pessoas, aperta mãos, visita lideranças, participa de reuniões, faz promessas e fala como se conhecesse de perto os problemas da população.
Depois da eleição, porém, vem o silêncio.
A cidade que antes estava no roteiro desaparece da agenda. As pessoas que receberam abraços e promessas passam a ter dificuldade até para conseguir uma resposta. E o político, que durante a campanha parecia tão próximo, passa a ser lembrado apenas pelas redes sociais, por uma fotografia ou por uma nova campanha eleitoral.
É preciso refletir sobre isso.
O voto não deveria ser tratado como uma moeda de troca nem como uma espécie de autorização para desaparecer durante quatro anos. Votar é escolher um representante, mas também é estabelecer uma relação de responsabilidade entre quem recebe o voto e quem deposita confiança naquela pessoa.
Deputado não é representante apenas durante a campanha. O mandato continua depois que as urnas são fechadas.
E o eleitor também precisa mudar a forma de acompanhar a política. Não basta lembrar do candidato quando ele chega à cidade distribuindo abraços, fazendo discursos e prometendo resolver todos os problemas. É preciso perguntar: o que ele fez depois que foi eleito? Quantas vezes esteve presente? Que pautas defendeu? Que recursos destinou? Que posicionamentos assumiu? Como votou? Quem acompanha seu mandato?
Não estou dizendo que um deputado precisa estar fisicamente todos os dias na cidade. Isso seria impossível. Um parlamentar tem suas responsabilidades institucionais e precisa exercer seu mandato onde ele acontece. Mas existe uma diferença enorme entre não estar presente todos os dias e simplesmente aparecer quando precisa novamente do voto.
A população merece respeito antes, durante e depois da eleição.
Também não se trata de escolher este ou aquele candidato. Cada eleitor é livre para fazer sua escolha. O que precisa existir é informação, consciência e acompanhamento. O próprio Tribunal Superior Eleitoral orienta o eleitorado a buscar informações adequadas e verdadeiras para fazer uma escolha consciente.
Na minha visão, uma cidade não deveria ser lembrada apenas quando chega o período eleitoral.
O eleitor precisa deixar de perguntar somente “o que esse político vai trazer?” e começar a perguntar também “o que ele fez quando já tinha o nosso voto?”
Essa pergunta muda muita coisa.
Porque promessa qualquer pessoa pode fazer. Difícil é manter a presença, cumprir compromissos, prestar contas e continuar ouvindo a população quando não existe urna esperando por uma resposta.
No fim das contas, o voto é secreto, livre e pertence ao eleitor. Mas a responsabilidade de acompanhar quem foi eleito não termina no momento em que a urna confirma o resultado.
Pelo contrário.Ali começa outra etapa: a fiscalização.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças da democracia: entender que político não deve aparecer somente para pedir voto. Deve também estar disposto a ouvir, explicar, prestar contas e responder à população durante todo o mandato.
Porque cidade nenhuma pode ser tratada como parada de campanha.
E eleitor nenhum deveria ser lembrado apenas quando chega a hora de pedir novamente o seu voto.
Silvano Silva

