Tem político que parece gostar muito de eleição. E só de eleição.
Passa quatro anos praticamente desaparecido, mas quando começa a chegar o período eleitoral, de repente aparece em todo canto. Visita cidade, participa de evento, abraça o povo, tira fotografia, grava vídeo, manda mensagem e promete que agora vai estar presente.
É o famoso deputado Copa do Mundo.Aquele que aparece de quatro em quatro anos.E aqui não estou falando de partido, de lado político ou de ideologia. Não importa se apoia A, B, C ou D. O que importa é o trabalho que esse parlamentar realizou durante o mandato.Porque mandato não é prêmio.Mandato é responsabilidade.
Um deputado federal não foi eleito apenas para aparecer em época de eleição. A Câmara dos Deputados deixa claro que entre as principais funções do parlamentar estão representar a população, elaborar leis, fiscalizar o Poder Executivo e acompanhar o orçamento público.
Então fica uma pergunta simples:
Onde estava esse deputado durante os quatro anos?Estava presente nas discussões importantes?
Apresentou propostas?Participou das comissões?Fiscalizou o governo?Defendeu os interesses do seu estado?Destinou recursos para os municípios?Prestou contas do seu mandato?Manteve diálogo permanente com a população?Ou só apareceu quando percebeu que precisava novamente do voto?
É preciso parar de tratar eleição como campeonato de torcida. Política não deveria ser sobre escolher o candidato porque ele é amigo de alguém, porque pertence ao nosso grupo, porque apoia determinado político ou porque aparece mais nas redes sociais.
Também não deveria ser uma disputa de quem tem a maior estrutura, o maior número de carros, o maior palanque ou a maior quantidade de fotografias.O voto deveria ser consequência da análise do trabalho.
E trabalho parlamentar precisa deixar rastros. Hoje, inclusive, existem ferramentas oficiais para acompanhar a atuação dos deputados, suas despesas parlamentares e as emendas destinadas aos estados e municípios. A própria Câmara disponibiliza informações para que o cidadão possa fiscalizar o mandato.
Então não precisamos acreditar apenas no discurso. Precisamos conferir.
É claro que nenhum deputado estará presente em todos os lugares, nem resolverá todos os problemas. Também é preciso compreender que deputado federal não executa diretamente obras municipais. Seu papel envolve legislação, fiscalização e destinação de recursos por meio do orçamento e das emendas.
Mas uma coisa é não poder fazer tudo.Outra coisa é desaparecer.Eu particularmente acredito que o eleitor precisa fazer uma pergunta antes de apertar o botão da urna:O que esse deputado fez pelo povo durante o mandato que está terminando?Não estou dizendo em quem ninguém deve votar.
Cada eleitor é livre para fazer sua escolha.Mas acredito que essa escolha precisa ser consciente.Não podemos continuar elegendo pessoas simplesmente porque aparecem na nossa cidade a cada quatro anos.Política não pode ser visita de campanha.Representação popular precisa ser permanente.
O eleitor não pode ser lembrado somente quando o político precisa do seu voto.
E talvez esteja na hora de mudar uma velha cultura: parar de perguntar apenas “quem ele apoia?” e começar a perguntar “o que ele fez?”Porque apoio político passa.Partido muda.Grupo político muda.
Discurso muda. Mas o mandato fica registrado. E, no fim das contas, é esse registro que deveria ajudar o eleitor a decidir se vale a pena confiar novamente o seu voto. Deputado Copa do Mundo pode até continuar existindo. Mas talvez o eleitor precise decidir se ainda quer convocá-lo para mais uma partida.
Silvano Silva

