Sempre enxerguei a Copa do Mundo como o maior encontro entre os povos. Durante décadas, o futebol foi capaz de derrubar fronteiras, aproximar culturas e fazer milhões de pessoas falarem a mesma língua: a da bola. A cada quatro anos, o planeta parecia esquecer, por alguns instantes, suas diferenças para celebrar um espetáculo que transcendia o esporte.
Mas confesso que a Copa de 2026 tem provocado em mim uma inquietação.
Infelizmente, em muitos momentos, o futebol deixou de ocupar o centro das atenções. O que deveria ser lembrado pelos grandes jogos, pelas histórias de superação e pelos craques em campo passou a ser marcado por denúncias, polêmicas de arbitragem, acusações de favorecimento, manifestações políticas, episódios de racismo e questionamentos sobre a própria credibilidade da competição. Diversas decisões do VAR e da arbitragem geraram críticas públicas, enquanto outros episódios envolvendo discriminação, pressões e debates sobre a condução do torneio ampliaram o desgaste da imagem da Copa.
Não afirmo que todas as acusações sejam verdadeiras, nem que toda reclamação tenha fundamento. O futebol sempre conviveu com a paixão, e paixão também produz exageros. Porém, quando as dúvidas passam a ser maiores do que as certezas, quem perde é o esporte.
É triste perceber que, em muitos debates, fala-se menos da qualidade do jogo e mais dos bastidores. As manchetes já não destacam apenas gols e grandes atuações, mas suspeitas, conflitos, interferências e decisões contestadas. A confiança, que sempre foi o maior patrimônio de qualquer competição, parece dar lugar à desconfiança.
A Copa do Mundo nunca foi perfeita. Em todas as épocas existiram erros de arbitragem, discussões e controvérsias. A diferença é que hoje tudo acontece diante de câmeras, tecnologias, redes sociais e julgamentos instantâneos. O problema não é a existência da tecnologia; é quando ela deixa de transmitir segurança e passa a alimentar novas dúvidas.
A polêmica, porém, não ficou restrita aos gramados. Ela também invadiu as cabines de transmissão, os estúdios de televisão e as redes sociais. Em alguns momentos, profissionais da comunicação parecem ter esquecido dois princípios fundamentais do jornalismo esportivo: a ética e a imparcialidade. A paixão pelo futebol é compreensível, mas não pode se sobrepor ao compromisso com uma cobertura equilibrada. Quando a emoção fala mais alto do que os fatos, quem perde é a credibilidade da informação.
Como se não bastasse, até a cúpula do futebol mundial entrou no centro das discussões. As declarações públicas do presidente da FIFA, Gianni Infantino, demonstrando simpatia pela campanha de uma seleção, alimentaram críticas e abriram espaço para questionamentos sobre a indispensável neutralidade que se espera da principal autoridade do futebol. Independentemente da intenção da fala, episódios como esse contribuem para ampliar a desconfiança de torcedores que esperam isenção da entidade máxima do esporte.
Some-se a isso as críticas à arbitragem, as acusações de favorecimento, os casos de racismo, as manifestações políticas e as discussões que extrapolaram as quatro linhas. O resultado é uma Copa em que, muitas vezes, os bastidores roubaram a cena do espetáculo.
O futebol merece voltar a ser o protagonista. Afinal, a grandeza de uma Copa do Mundo está na certeza de que todos entram em campo sob as mesmas regras, sem privilégios, sem suspeitas e com respeito aos princípios que fizeram desse torneio o maior evento esportivo do planeta.
O futebol continuará sendo o esporte mais apaixonante do mundo. Disso não tenho dúvidas. Mas a FIFA e todos os envolvidos precisam compreender que nenhuma inovação tecnológica, nenhum espetáculo de abertura e nenhum recorde de audiência será maior do que a confiança do torcedor.
Porque uma Copa do Mundo não vive apenas de estádios lotados. Ela vive da credibilidade.
E quando a credibilidade entra em campo já derrotada, quem levanta a taça pode até ser um campeão. Mas quem realmente perde é o futebol.
Silvano Silva

