Em política, uma das maiores dificuldades é compreender que nem tudo pode ser permitido em nome de uma preferência partidária. É justamente quando a paixão política fala mais alto que a razão que precisamos parar, refletir e entender uma questão fundamental: não é sobre lados, é sobre limites.
Vivemos em uma sociedade em que as pessoas têm o direito de escolher seus representantes, defender suas ideias e apoiar o projeto político com o qual mais se identificam. Isso faz parte da democracia. O problema começa quando a defesa de um lado passa a ser mais importante do que o respeito às regras, às instituições e à liberdade de quem pensa diferente.
É preciso ter cuidado para não transformar a política em uma disputa na qual vale tudo para vencer. Não vale tudo. A democracia não pode ser defendida apenas quando o resultado nos agrada, assim como a liberdade não pode ser reconhecida somente quando beneficia aqueles que estão do nosso lado.
Governos passam, mandatos acabam, partidos mudam de posição e lideranças que hoje ocupam o poder amanhã podem estar na oposição. A história política está cheia de exemplos de grupos que mudaram de lugar conforme as circunstâncias. Por isso, antes de defender qualquer projeto político, precisamos pensar nos princípios que devem permanecer acima dos interesses de qualquer grupo.
E aqui está uma reflexão necessária: se uma atitude é considerada errada quando praticada pelo adversário, por que deveria ser aceita quando vem do político em quem votamos?
É nesse ponto que a coerência precisa falar mais alto do que a conveniência. Não podemos cobrar ética de um lado e fechar os olhos para os erros do outro. Não podemos exigir respeito às regras apenas quando elas nos favorecem. Princípios verdadeiros não mudam de acordo com a cor da bandeira, o número do partido ou o nome de quem está no poder.
A liberdade de expressão, o direito ao contraditório, o respeito à vontade popular e o cumprimento das regras do jogo democrático não são favores concedidos por governantes. São pilares que precisam ser respeitados, independentemente de quem governa ou de quem faz oposição.
E isso também exige responsabilidade de cada cidadão. O voto não deve ser apenas um gesto de simpatia, gratidão, revolta ou paixão. Votar é uma decisão que produz consequências para toda a sociedade. Por isso, é necessário analisar propostas, observar comportamentos, questionar discursos e, principalmente, não entregar a própria consciência a qualquer liderança política.
Não estou falando de escolher um lado. Estou falando de compreender os limites que nenhum lado deveria ultrapassar. O debate político é necessário, a divergência é legítima e a crítica faz parte de uma sociedade livre. O que não podemos aceitar é que a intolerância ocupe o lugar do diálogo e que os interesses eleitorais sejam colocados acima dos direitos da população.
Como comunicador, acredito que o nosso papel não é dizer ao cidadão em quem ele deve votar, mas contribuir para que ele compreenda a importância de suas escolhas. Informar, questionar e provocar a reflexão são caminhos para uma sociedade mais consciente. Afinal, uma população que pensa, questiona e cobra não deve ser vista como ameaça, mas como parte essencial da democracia.
Precisamos entender que nenhum político é dono do voto de ninguém, assim como nenhum partido é dono da verdade. Mandatos são temporários. O poder precisa ter limites. E a liberdade de um povo não pode depender da vontade de quem ocupa o governo.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples: de que adianta vencer uma disputa política se, no caminho, abrimos mão dos princípios que deveriam sustentar a nossa própria liberdade?
O voto de hoje deve servir para fortalecer a democracia, nunca para perdê-la. Porque defender um lado é uma escolha política. Defender a liberdade, respeitar as regras e preservar a democracia é um compromisso que deveria estar acima de todos os lados.
Silvano Silva

