O trabalho mediado por plataformas digitais já faz parte da rotina de quase 2 milhões de brasileiros. Em 2025, 1,959 milhão de pessoas estavam ocupadas por meio de aplicativos, o equivalente a 1,9% de todos os trabalhadores ocupados no país. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento considera pessoas com 14 anos ou mais que utilizam plataformas digitais para realizar atividades de transporte, entregas ou prestação de serviços. Pela primeira vez, a pesquisa também contabilizou trabalhadores que utilizam os aplicativos como fonte de renda complementar.
A maior parcela desse grupo atua no transporte de passageiros. São cerca de 1,2 milhão de pessoas, correspondendo a 58,9% dos trabalhadores plataformizados. Desse total, aproximadamente 1,1 milhão utilizam aplicativos como Uber e 99, enquanto 232 mil trabalham exclusivamente por meio de aplicativos de táxi.
Os entregadores representam 19,2% dos trabalhadores de plataformas, com cerca de 376 mil pessoas. Eles atuam em serviços de entrega de alimentos e produtos por aplicativos como iFood, Rappi e Zé Delivery.
Outro grupo identificado pelo IBGE reúne 313 mil trabalhadores que prestam serviços gerais ou profissionais por plataformas digitais, incluindo atividades como design, tradução e serviços médicos realizados por meio de aplicativos.
Mais horas de trabalho e menor rendimento por hora
Apesar de apresentar um rendimento mensal médio semelhante ao de trabalhadores que não utilizam plataformas, quem trabalha por aplicativos enfrenta jornadas mais extensas.
Em 2025, o rendimento médio mensal dos plataformizados foi de R$ 3.147, praticamente o mesmo registrado entre os demais trabalhadores do setor privado, de R$ 3.148.
A diferença aparece na quantidade de horas trabalhadas. Os trabalhadores de aplicativos cumpriam, em média, 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas entre os não plataformizados.
Com isso, o rendimento médio por hora dos trabalhadores de aplicativos ficou em R$ 16,20, cerca de 12% abaixo dos R$ 18,40 recebidos, em média, pelos demais trabalhadores.
Segundo o IBGE, o rendimento dos plataformizados considera o valor efetivamente retirado pelo trabalhador após despesas relacionadas à atividade, como os gastos com combustível no caso de motoristas.
Informalidade é maior
A pesquisa também aponta uma diferença significativa nas condições de trabalho. Entre os trabalhadores de aplicativos, 72,1% estavam na informalidade em 2025. Entre os demais trabalhadores do setor privado, a taxa era de 42,7%.
A cobertura previdenciária também era menor entre os plataformizados: apenas 34% contribuíam para a Previdência, enquanto o percentual chegava a 63% entre os não plataformizados.
O IBGE considera informais, entre outros casos, trabalhadores autônomos sem CNPJ e empregados sem carteira assinada. A ausência de contribuição previdenciária reduz o acesso a benefícios como aposentadoria, auxílio por incapacidade e pensão por morte.
Maioria trabalha por conta própria
Outra característica apontada pela pesquisa é o predomínio do trabalho por conta própria. Cerca de 86,8% dos trabalhadores de aplicativos se declararam nessa condição, percentual muito superior aos 28,9% registrados entre os ocupados do setor privado em geral.
Apesar de serem classificados como autônomos, os trabalhadores apresentam forte dependência das plataformas para definir aspectos importantes da atividade.
Entre motoristas de aplicativos, por exemplo, 80,2% afirmaram que o valor recebido por cada serviço depende totalmente da plataforma. Entre entregadores, o percentual foi de 78,3%.
O IBGE também identificou dependência em relação aos prazos e à forma de pagamento. Entre os entregadores, 65,9% disseram que o prazo para execução da tarefa é determinado pelo aplicativo, enquanto 71,3% afirmaram que a forma de recebimento do pagamento também é definida pela plataforma.
Falta de outras oportunidades aparece entre as principais motivações
A pesquisa também procurou identificar por que os trabalhadores ingressaram nas plataformas digitais.
Entre motoristas de aplicativos de transporte, exceto táxis, e entregadores, a principal justificativa foi a dificuldade de encontrar outro trabalho. A flexibilidade da atividade e a possibilidade de obter rendimento maior do que em outras ocupações disponíveis também foram apontadas como motivos.
Do total de pessoas que tinham o trabalho por aplicativo como principal ocupação em 2025, 84,4% eram homens. Quase metade, 47%, tinha entre 25 e 39 anos.
Número de trabalhadores cresce
Quando são considerados apenas aqueles que tinham os aplicativos como principal ocupação, o contingente chegou a 1,8 milhão de pessoas em 2025.
Esse recorte permite comparar os dados com levantamentos anteriores do IBGE. Em 2022, eram 1,3 milhão de trabalhadores nessa condição. Em 2024, o número havia chegado a 1,7 milhão.
Entre 2024 e 2025, houve crescimento de 9,1%. Na comparação com 2022, a alta foi de 36,8%.
O número de entregadores foi o que mais cresceu no período mais recente, com avanço de 18,6% entre 2024 e 2025.
O IBGE ressalta que a pesquisa sobre trabalho por plataformas ainda tem caráter experimental e está em processo de avaliação. Por isso, os dados precisam ser analisados considerando as mudanças metodológicas entre as diferentes edições do levantamento.
Os resultados são divulgados em um momento de discussão sobre a chamada “uberização” do trabalho no Brasil. A relação entre trabalhadores e plataformas digitais está no centro de debates judiciais e trabalhistas, especialmente em torno do reconhecimento ou não de vínculo empregatício e das garantias de proteção social para motoristas e entregadores.
PB Agora

