Houve um tempo em que a credibilidade de um veículo jornalístico era construída com apuração rigorosa, sobriedade editorial e compromisso com o interesse público. Mas vivemos uma era em que, entre a pressa do “urgente” e a ânsia pelo espetáculo, até mesmo canais que se orgulhavam de sua seriedade transformaram o noticiário em show multimídia. Foi assim que a GloboNews protagonizou uma cena que ficará registrada como um marco de constrangimento televisivo: o vergonhoso PowerPoint exibido como se fosse a grande revelação da verdade, aquela verdade pronta, arrumadinha e artificial, que só existe na imaginação de quem pretende convencer antes de informar.
O episódio escancarou as fragilidades de um jornalismo que, ao tentar parecer didático, termina sendo pueril. Um festival de setas, círculos, caixas coloridas e conclusões apressadas foi apresentado como se sintetizasse uma complexa realidade política. Os apresentadores, convictos da “pedagogia” visual, pareciam não perceber que, na ânsia de conectar pontos, fabricaram uma narrativa que mais sugeria do que explicava. Faltou nuance, sobrou pretensão.
Não foi a primeira vez que o país assistiu a um PowerPoint constrangedor. Todos lembramos do espetáculo inquisitorial de outros tempos, quando autoridades confundiam convicção com prova. A GloboNews, ao reproduzir a estética e a lógica daquele velho show, pareceu esquecer as lições que a história recente ofereceu ao jornalismo: simplificar o que é complexo costuma deformar; tentar “ensinar” o público com esquemas prontos frequentemente o subestima.
O mais lamentável, porém, é perceber que o recurso ao sensacionalismo gráfico não foi acidente. Foi escolha. Uma aposta no impacto visual em detrimento da profundidade analítica. Um esforço para viralizar, e não para esclarecer. Porque, no fim, o PowerPoint da GloboNews revelou mais sobre a emissora do que sobre o tema que ela pretendia analisar: revelou pressa, superficialidade e uma inquietante dependência do espetáculo como linguagem.
Talvez a maior lição desse episódio seja lembrar que, quando o jornalismo abdica da precisão, a confiança do público evapora. Cada seta mal desenhada empurra um pouco mais o telespectador para longe. Cada conclusão montada em slide reforça a sensação de que a imprensa se preocupa mais em performar do que em informar. E, num país que já convive com tamanha polarização, fabricar ruídos é o oposto do que se espera de quem tem a missão de esclarecer.
O PowerPoint passou. A vergonha ficou. E o jornalismo, esse sim, merece algo mais do que setas coloridas apontando para lugar nenhum.
Rui Leitão

