A Constituição de 1934 previa a realização de eleições presidenciais três anos após sua promulgação. Entre os candidatos estava José Américo de Almeida, que enfrentaria Armando de Sales Oliveira e Plínio Salgado.
No dia 31 de julho de 1937, uma multidão reuniu-se na Esplanada do Catete para ouvir José Américo. Foi o ponto mais alto de sua campanha, articulada por Juracy Magalhães e coordenada por Benedito Valadares. Ex-ministro de Getúlio Vargas e integrante do Tribunal de Contas da União, ele surgia como um nome de peso na sucessão presidencial.
O país, porém, vivia sob tensão. Desde 1936, medidas de exceção haviam sido adotadas após as revoltas comunistas de 1935. O “perigo vermelho” era explorado como instrumento político para justificar o endurecimento do regime.
Dentro do próprio governo, sua candidatura enfrentava resistências. Vargas, embora formalmente aliado, agia com ambiguidade. José Américo, de perfil independente, não oferecia garantias de submissão aos grupos militares que sustentavam o poder desde 1930.
Em seus discursos, alertava: “não se destruirá a liberdade dos brasileiros com falsos regimes de autoridade”. Era um aviso direto contra o avanço autoritário que já se insinuava no horizonte político.
Em setembro, o Plano Cohen, uma fraude fabricada por integralistas, difundiu o medo de uma insurreição comunista. Vargas utilizou o episódio para decretar o estado de guerra. Em novembro, impôs uma nova Constituição e instaurou o Estado Novo.
A eleição simplesmente deixou de existir.
José Américo não foi derrotado por adversários, nem pelo voto popular. Foi impedido de disputar. Sua candidatura foi esmagada por um golpe que suprimiu o direito do povo de escolher seu presidente.
Mais do que interromper uma eleição, o que se consumou em 1937 foi a destruição deliberada da ordem democrática. Rasgou-se a Constituição, silenciou-se a vontade popular e institucionalizou-se o autoritarismo como método de governo.
O episódio permanece como um dos mais graves atentados à democracia brasileira, um lembrete de que, quando o poder teme o voto, não hesita em eliminá-lo.
Rui Leitão

