A classe média e o voto contra si Por Rui Leitão

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Uma das razões pelas quais a classe média se posiciona ideologicamente à direita é o desejo de manter seu grupo social em uma situação de superioridade em relação às classes populares. As manifestações reacionárias protagonizadas por segmentos dessa classe também revelam um traço saudosista de períodos autoritários, quando hierarquias sociais eram mais rígidas e menos contestadas. Somam-se a isso o conservadorismo e um moralismo seletivo.

Percebe-se, ainda, um temor recorrente diante de discursos progressistas voltados à promoção da inclusão social. Um exemplo emblemático foi a aprovação, em 2013, da chamada PEC das Domésticas, que estendeu às trabalhadoras domésticas direitos já assegurados a outros empregados formais. A reação negativa expôs o incômodo de setores da classe média diante da quebra de privilégios historicamente naturalizados. O mesmo ocorreu com a democratização do acesso às universidades públicas, por meio de políticas de cotas raciais e sociais, que alteraram a composição social desses espaços.

Para muitos, tornou-se desconfortável dividir ambientes antes considerados exclusivos, seja na universidade, seja nos aeroportos, ironicamente comparados a rodoviárias. O ex-ministro Paulo Guedes sintetizou esse pensamento ao criticar o acesso ampliado ao consumo, mencionando, de forma preconceituosa, a possibilidade de empregadas domésticas viajarem ao exterior.

O paradoxo é evidente: a classe média é formada majoritariamente por trabalhadores assalariados, dependentes da venda de sua força de trabalho. Ainda assim, comporta-se simbolicamente como elite, cultivando distinções que lhe garantam uma sensação de superioridade econômica e moral. Essa aspiração a aproxima de pautas políticas contrárias às políticas sociais, vistas como ameaça a seus já limitados privilégios.

Mesmo submetida a pressões econômicas, como o alto custo da educação privada e dos serviços de saúde, essa classe frequentemente direciona sua insatisfação não à elite que concentra renda e poder, mas às camadas mais pobres, reforçando uma lógica de exclusão. Em muitos casos, adere a discursos que deslegitima a ascensão social de grupos historicamente marginalizados e rejeita lideranças oriundas dessas camadas.

A classe média brasileira vive, assim, sob o signo do medo: medo de perder seu padrão de consumo, seu acesso a bens e, sobretudo, sua posição relativa na estrutura social. Como observa Jessé Souza, trata-se de um grupo que luta para preservar estruturas que impedem a consolidação de uma democracia efetivamente inclusiva. Nesse contexto, a direita opera com eficiência ao explorar inseguranças e reforçar a percepção de ameaça.

No fundo, a engrenagem funciona com precisão: o pobre acredita ter ascendido, a classe média imagina-se elite e a elite real permanece invisível, exercendo seu poder sem ser questionada.

É nesse jogo de ilusões que se sustenta uma das mais eficazes formas de dominação social e uma das maiores barreiras à construção de um país mais justo.

Rui Leitão

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