Uma nova dinastia no Brasil? Por Rui Leitão

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A política brasileira sempre conviveu com famílias influentes. Coronéis, sobrenomes tradicionais que atravessaram décadas ocupando espaços de poder. Não é exatamente uma novidade na nossa história. O que chama atenção no cenário atual, porém, é a forma como a liderança da extrema direita passou a se organizar quase como um patrimônio familiar.

No centro desse arranjo está o ex-presidente da República que se encontra preso. Ao seu redor, construiu-se um movimento político fortemente personalista, em que a figura do líder ocupa um lugar quase absoluto. A lealdade ao chefe tornou-se o principal critério de pertencimento, muitas vezes mais importante do que programas, ideias ou projetos para o país.

Dentro dessa lógica, a sucessão política começa a assumir contornos curiosos. Em vez de surgir naturalmente de disputas internas, do reconhecimento público ou da capacidade de liderança, ela parece seguir um roteiro familiar. Como em antigas monarquias, o poder tende a permanecer dentro do próprio clã.

Assim, despontam como herdeiros políticos aqueles que carregam o mesmo sobrenome. E como definição da ordem de sucessão na herança política, são tratados pelos números. O 01, senador da República, frequentemente aparece como o primogênito político. Ao lado dele, também se projetam o 02, deputado federal com forte presença internacional nas redes da direita radical, e o 03, estrategista digital e figura central na comunicação política do grupo.

A consequência desse modelo é visível. Lideranças que tentam ocupar espaço dentro do mesmo campo ideológico acabam esbarrando em uma espécie de barreira invisível. Podem até ser toleradas como aliadas, mas dificilmente são aceitas como sucessoras naturais. A lógica é simples: quem não pertence à família dificilmente herdará o comando.

O curioso é que esse formato contrasta com o discurso frequentemente utilizado por esse mesmo campo político. Criticam-se os privilégios das dinastias políticas e fala-se em renovação. No entanto, na prática, consolida-se um modelo que lembra justamente aquilo que se diz combater.

A política, que deveria ser o espaço do debate aberto e da construção coletiva, corre o risco de se transformar em algo parecido com uma corte. Nela, o sobrenome passa a valer mais que a trajetória, e a fidelidade ao chefe pesa mais que a capacidade de liderança.

No fim das contas, a pergunta que permanece no ar é simples: estamos diante de um movimento político ou de uma dinastia em formação?

Porque, quando o poder passa a ser tratado como herança de família, a democracia deixa de ser disputa de ideias e começa perigosamente a se parecer com sucessão de trono.

Rui Leitão

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