LIÇÕES DE UMA RUA ANTIGA Por Rui Leitão

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Há ruas que apenas cruzamos; outras permanecem na nossa memória para sempre. A Rua das Trincheiras, em João Pessoa, pertence à segunda categoria. Na minha pré-adolescência, percorri incontáveis vezes aquele caminho, quase sempre a pé, ao lado de meus pais, quando íamos visitar meus tios João Cunha e Detinha. Quando não tomávamos o bonde ou as marinetes rumo ao centro, escolhíamos seguir pelas Trincheiras. Sem perceber, eu recebia ali minhas primeiras lições de pertencimento.

Observava as fachadas com atenção. Os palacetes antigos, alguns já deteriorados pelo tempo, exibiam ainda certa nobreza. Soube depois que muitos haviam sido erguidos no tempo áureo do ciclo do algodão, quando a elite paraibana decidiu fixar residência naquela artéria, imprimindo-lhe traços do art nouveau e uma ambição europeia em pleno trópico.

A família Zaccara, imigrante italiana que chegou à Paraíba no início do século XX, construiu ali um palacete que ficou conhecido como a Casa Azul. Tornou-se referência de um tempo que resiste na memória dos que viveram aquela cidade mais intimista e aristocrática. Como outras construções da época integra a memória arquitetônica do centro histórico, no tempo em que a Rua das Trincheiras era endereço de famílias tradicionais e palco de acontecimentos sociais marcantes.

Entre um casarão e outro, surgiam moradias mais modestas, coladas umas às outras. Essa convivência entre o passado aristocrático e a vida popular sempre me pareceu a parte mais humana da rua: ela não pertenceu apenas aos poderosos, mas também aos anônimos que sustentaram a cidade com o próprio esforço.

Mais tarde descobri que o nome Trincheiras vinha de um entrincheiramento mandado abrir pelo governador João da Maia da Gama para defender a cidade de ameaça vinda de Olinda durante a Guerra dos Mascates. Passei a imaginar soldados vigiando aquele mesmo chão por onde eu caminhava distraído.

O ponto que mais me fascinava era a Balaustrada, erguida no governo de Camilo de Holanda, em 1918, e que servia como local de passeio para a elite. Dali eu contemplava a parte baixa da cidade, tentando recompor o cenário anterior às fábricas e às transformações urbanas. Havia uma grandeza silenciosa naquele horizonte, sobretudo ao cair da tarde, quando o sol parecia repousar sobre a paisagem.

Anos depois, ao ler Itinerário Lírico da Cidade de João Pessoa, de Jomar Moraes Souto, reencontrei nos versos a atmosfera que minha memória guardara.

Hoje, quando volto às Trincheiras, caminho também sobre minhas próprias lembranças. A rua deixou de ser apenas um logradouro histórico; tornou-se parte da minha biografia. E talvez seja essa a maior lição que ela me deu: as cidades mudam, os casarões envelhecem, mas as ruas que nos formam continuam escrevendo, silenciosamente, a nossa história — mesmo quando já pensamos ter seguido adiante.

Rui Leitão

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