Entre a emoção e a razão: as palavras Por Rui Leitão

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Somos, a todo momento, alcançados pelo poder das palavras. Elas refletem pensamentos e sentimentos. Podem nos impactar positivamente, mas também podem produzir consequências negativas — tanto aquelas que pronunciamos quanto as que ouvimos. Há quem diga que as palavras revelam o coração. Jesus nos ensinou que “a boca fala daquilo de que está cheio o coração”. Seja de amor ou de ódio, de solidariedade ou de hostilidade, de apoio ou de aversão.

Daí o perigo de se proferir palavras equivocadas quando surgem discussões acaloradas, algo muito comum nos debates apaixonados. Emocionalmente afetados, os interlocutores muitas vezes partem para as ofensas, a maledicência e os julgamentos indevidos. O próprio tom da voz já revela o grau de exaltação contido nas palavras pronunciadas.

Vivemos um tempo em que os ânimos estão inflamados por posicionamentos políticos que colocam em choque ideias e convicções. Nesse clima de excitação, as pessoas falam movidas pela raiva, pela discórdia e pela desarmonia, terminando por atacar umas às outras impulsivamente. Amigos passam a se desconhecer, parentes se estranham, num perigoso embate em que as palavras exercem um poder devastador nas relações sociais.

Nesses momentos, é preciso desenvolver uma postura de autocontrole e buscar um estado mental de equilíbrio, por maiores que sejam as provocações. Afinal, há um antigo adágio popular que afirma ser impossível haver briga quando um dos interlocutores não quer. O comedimento nas palavras expressa sensatez, traduz respeito ao próximo e representa, sobretudo, a prevalência da razão sobre a emoção. É assim que se torna possível a crítica construtiva, livre de radicalismos e capaz de contribuir para a formação de opiniões mais convergentes.

Confesso que também tenho sido tentado a entrar nesse conflito temperamental quando me vejo motivado a defender meus pontos de vista diante de pensamentos diferentes.
Nessas ocasiões, percebo que posso perder a calma. Às vezes, até com certo atraso, dou-me conta de que disse o que não devia ou ouvi o que preferiria não escutar. O que começou como uma conversa amistosa transforma-se em discussão imprudente, provocando mágoas e ressentimentos. Certamente esse não é o melhor caminho para quem deseja estabelecer um debate sério e responsável sobre qualquer assunto.

Talvez por isso eu tenha aprendido, ainda que lentamente, a respeitar mais o peso das palavras. Nem sempre consigo. Às vezes também me deixo levar pelo calor da discussão e, depois, já em silêncio, fico pensando que teria sido melhor escolher outras palavras — ou talvez nenhuma. A vida acaba nos ensinando que as palavras podem construir pontes, mas também podem erguer muros difíceis de derrubar. E talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente nesse cuidado cotidiano de pensar antes de falar, para que nossas palavras não firam aquilo que, no fundo, desejamos preservar: o respeito e a convivência.

Rui Leitão

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