FRANCISCO E A IRA DOS CONSERVADORES Por Rui Leitão

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Causou estranheza a muitos católicos verem setores autoproclamados defensores da tradição voltarem-se com tanta virulência contra o sucessor de Pedro. O pontificado do Papa Francisco revelou não apenas divergências teológicas, mas uma fratura mais profunda: a contaminação da fé pela polarização ideológica.

Francisco nunca alterou dogmas. Não suprimiu artigos do Credo nem rasgou páginas do Catecismo. O que fez foi recolocar no centro do discurso eclesial temas que sempre estiveram no coração do Evangelho: a misericórdia, os pobres, o cuidado com a criação, a acolhida aos marginalizados. Ainda assim, bastou enfatizar essas dimensões para ser acusado de “esquerdista”.

No Brasil, durante os anos de radicalização política, especialmente no governo passado, criou-se um ambiente em que qualquer defesa da justiça social era rotulada como militância partidária. Quando o papa convocou o Sínodo para a Amazônia e denunciou a devastação ambiental e o sofrimento dos povos originários, não faltaram vozes a insinuar que o Vaticano estaria a serviço de uma agenda globalista. O que antes era doutrina social passou a ser lido como conspiração.

Mas talvez o incômodo maior tenha sido o estilo. Francisco preferia o gesto simples, a palavra direta, o telefonema inesperado. Recusou símbolos de ostentação, aproximou-se das periferias, visitou prisões, lavou os pés de migrantes. Essa linguagem pastoral, mais próxima das bases sociais do que dos salões aristocráticos, desagradava aos que confundem tradição com rigidez e autoridade com dureza. Seu túmulo foi colocado numa nave lateral da Basílica de Santa Maria Maggiore, com a inscrição “Franciscus” – o seu nome papal em latim – e ele pediu que a sepultura fosse simples e sem ornamentos especiais.

Há, também, um elemento simbólico. Em tempos de identitarismos agressivos, o papa insistiu numa Igreja “em saída”, aberta ao diálogo, consciente de suas próprias fragilidades históricas. Para alguns, isso soava como fraqueza; para outros, era retorno às fontes do cristianismo primitivo, quando a comunidade se reconhecia menos como fortaleza sitiada e mais como casa comum.

Convém lembrar que a Doutrina Social da Igreja não nasceu com Francisco. Desde a encíclica Rerum Novarum, no século XIX, o magistério católico se debruça sobre as questões sociais, o mundo do trabalho e a dignidade humana. Ao atualizar esse patrimônio, o pontífice não inovava na essência; apenas retomava uma tradição muitas vezes esquecida por aqueles que a invocam seletivamente.

A resistência a Francisco revela menos sobre o pontífice e mais sobre o nosso tempo. Vivemos uma era em que até a fé é convocada a tomar partido nas trincheiras políticas. E quando o líder espiritual se recusa a vestir a camisa de um projeto ideológico específico, torna-se alvo dos que desejam instrumentalizá-lo.

No fundo, a ira de certos conservadores não se explica por ruptura doutrinária, mas pelo desconforto diante de uma Igreja que insiste em lembrar que o Evangelho começa pelos últimos. A opção de Francisco, profundamente evangélica, recoloca Cristo no centro e desloca as ideologias para a periferia. Talvez seja justamente aí que resida sua fidelidade — e, paradoxalmente, a razão de tanta incompreensão.

Rui Leitão

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