Quem atravessou as últimas décadas da vida brasileira sabe que nossa política sempre foi terreno de paixões. Recordo-me do final dos anos 1970, quando o nome de Luiz Inácio Lula da Silva começou a ultrapassar os portões das fábricas do ABC paulista. Para muitos, ali surgia a esperança de que o Brasil profundo pudesse, enfim, alcançar o centro das decisões nacionais.
Quando Lula chegou à Presidência, em 2003, havia no ar uma sensação de ruptura histórica. Um retirante nordestino, forjado na pobreza e no trabalho manual, ocupava o Palácio do Planalto. O símbolo era poderoso: o filho das margens assumia o comando do país. Para milhões, aquilo significava reconhecimento e inclusão.
Mas toda transformação social desloca estruturas antigas. Os governos conduzidos pelo Partido dos Trabalhadores promoveram políticas de ampliação de renda, acesso ao ensino superior e valorização do salário mínimo. Mudaram vidas concretas e alteraram expectativas. Ao mesmo tempo, despertaram desconfortos silenciosos. A ascensão dos que sempre estiveram à margem provocou, em certos setores, a sensação de perda relativa de espaço e de prestígio.
Vieram também as denúncias e os escândalos. A centralidade assumida pela Operação Lava Jato redefiniu o debate público. A política passou a ser narrada como disputa moral absoluta. A figura de Lula deixou de ser apenas liderança partidária para se tornar símbolo de um embate entre visões antagônicas de país.
Nas conversas de rua, nos almoços de família e nas repartições públicas, percebi o endurecimento do diálogo. Divergências antes administráveis converteram-se em trincheiras. O “anti-Lula” deixou de significar mera discordância programática e passou a constituir identidade política. Não era apenas oposição a um governo, mas rejeição ao que ele simbolizava.
E o que simbolizava? Para uns, inclusão social e mobilidade; para outros, populismo e aparelhamento do Estado. Assim, o debate sobre Lula tornou-se espelho das nossas contradições históricas: desigualdade persistente, elitismo arraigado, expectativas frustradas e memórias seletivas.
Talvez o fenômeno revele menos sobre um homem e mais sobre o Brasil. Ainda não conseguimos aprender a conviver com a pluralidade sem transformá-la em ruptura. A intensidade das redes sociais ampliou ressentimentos e reduziu nuances. O adversário político passou a ser visto como ameaça existencial.
Como cronista que testemunhou diferentes ciclos da República, creio que o desafio de nossa geração seja substituir o “anti” pelo diálogo crítico. A democracia amadurece quando reconhecemos que líderes são transitórios, mas as instituições e a convivência civil precisam permanecer.
O “anti-Lula”, portanto, é também sintoma de um país em disputa consigo mesmo — entre memória e ressentimento, entre mudança e temor, entre esperança e desconfiança. E talvez só superemos essa divisão quando aprendermos que a política não deve ser território de exclusão, mas espaço de construção coletiva.
Rui Leitão

