No início da República, o Brasil instituiu, em vários Estados, o curso primário organizado em quatro séries, destinado às crianças de seis a dez anos de idade. Esse modelo se concretizava nos chamados grupos escolares. Na Paraíba, os primeiros foram implantados em 1916. Décadas depois, em 1958, quando eu e minhas irmãs, Rita e Fátima, fomos matriculados no Grupo Escolar Dr. Otacílio de Albuquerque, em Miramar, João Pessoa já contava com várias dessas instituições.
Quem pertence à minha geração sabe que o grupo escolar não era apenas um prédio público destinado ao ensino primário. Era quase uma extensão da casa da gente, um espaço onde aprendíamos não só a ler e escrever, mas a conviver, respeitar, esperar a vez, ouvir o outro. Era ali que se moldava o caráter, na construção do que viríamos a ser.
Morávamos na Avenida Tito Silva, num bairro então novo da Capital. Lembro-me da expectativa do primeiro dia de aula, da farda engomada, do cheiro do lápis recém-apontado. Não usávamos caneta esferográfica. Escrevíamos a lápis grafite, e o apontador era companheiro inseparável. Havia os cadernos de caligrafia, com aquelas linhas rígidas que pretendiam disciplinar a mão e o pensamento. Minha letra, hoje quase indecifrável, talvez seja a única prova de que nem todo método alcança êxito pleno.
As aulas de português tinham ditados frequentes e leituras em voz alta. Era um exercício de atenção e coragem. Errar fazia parte do aprendizado, mas havia exigência. Na matemática, decorávamos a tabuada até saber de cor as quatro operações. Não se discutia se gostávamos ou não; era preciso aprender. E aprendíamos.
Havia também ensinamentos religiosos na orientação católica, apesar de o Estado já ser laico. Cantávamos o Hino Nacional e o Hino da Paraíba com solenidade. Havia um sentimento de pertencimento, de comunidade, de respeito à escola como espaço sagrado do saber. Havia rigidez, limites, e, certamente, falhas. Mas havia autoridade pedagógica e uma crença coletiva de que a educação pública era instrumento de ascensão e cidadania.
Recordo tudo isso com uma ponta de saudade. É impossível não reconhecer que o ensino público ocupava lugar central na vida das famílias. Havia poucas escolas particulares porque a escola pública cumpria, com dignidade, sua missão.
Hoje, o que se observa é um cenário inquietante. A educação pública tornou-se campo de disputas ideológicas superficiais. A autoridade pedagógica foi fragilizada. Não se trata de defender um retorno acrítico ao passado. O mundo mudou, as metodologias evoluíram, a tecnologia transformou a sala de aula. Mas é importante que seja preservado o compromisso coletivo com a educação pública como fundamento da cidadania.
Estou recordando um tempo em que o Brasil, apesar de todas as contradições, parecia acreditar que a escola pública era instrumento de construção nacional. Hoje, mais do que nostalgia, essa memória me provoca inquietação — e a certeza de que sem educação pública forte não há democracia sólida nem futuro digno para nossas crianças. A escola que ainda visito em pensamento não é apenas lembrança de menino, é referência de um ideal que precisa ser mantido, se quisermos que as gerações que se sucedem tenham, não apenas salas de aula, mas futuro.
Rui Leitão

