A figura dos arrivistas sempre me proporcionou um sentimento de inquietação. Ao longo da vida, sobretudo na militância política, encontrei muitos deles: pessoas que não se constrangem em se mostrar incivilizadas. São fiéis apoiadores de projetos autoritários, incapazes de enxergar o óbvio, mas muito hábeis em semear desinformação e discórdia.
Vi, em diferentes momentos, como se infiltram nos espaços de convivência, inclusive nos lares, criando divisões entre amigos, parentes e companheiros de luta. Querem impor o pensamento único, rejeitam o diálogo, ridicularizam o contraditório. Seduzidos pelo discurso reacionário da extrema direita, fazem apologia de ditaduras como se fossem tempos de ordem e prosperidade. São camaleões sociais, presentes em todas as classes e ambientes.
No curso da minha vida ouvi relatos do período sombrio instaurado após o golpe de 1964. Mais tarde, pude estudar, pesquisar e testemunhar as marcas profundas que aqueles 21 anos de ditadura deixaram na vida nacional: censura, perseguições, torturas, exílios, silenciamentos. Por isso me assusta perceber, hoje, a naturalização da tentação autoritária em parte da sociedade brasileira. Os arrivistas pregam, sem pudor, a ruptura democrática, como se a história não tivesse nos ensinado nada.
Esses personagens raramente exercitam a autocrítica. Quando confrontados, recorrem à falsa solidariedade, às lágrimas calculadas, ao papel de vítimas. Já os vi posarem de “coitadinhos” quando apanhados em crimes, sem jamais demonstrarem arrependimento genuíno. Silenciam por um tempo, mas mantêm as armadilhas prontas. Buscam privilégios, status e poder, mesmo que isso signifique prejudicar os outros.
Os políticos carreiristas que observei ao longo da trajetória são exemplos acabados desse arrivismo: medíocres que se afirmam por meio da mentira, do oportunismo e da manipulação. Emergiram, muitas vezes, em momentos de crise, explorando o medo e a insegurança coletiva. Criam mitos, constroem ídolos de barro, verdadeiras bombas-relógio capazes de causar danos irreparáveis à sociedade.
Suas falas estão impregnadas de homofobia, xenofobia, racismo, sexismo e desprezo pela cultura e pelas artes. O resultado desse caldo é o avanço do neofascismo, intolerante, antidemocrático e avesso à pluralidade.
Aos meus olhos, a missão do nosso tempo é recuperar o ideário do homem autônomo, crítico e emancipado, capaz de viver numa sociedade plural, solidária e aberta ao diálogo. Escrevo estas linhas como quem testemunhou, estudou e sentiu os efeitos do autoritarismo. Por isso, reafirmo: é preciso enfrentar os arrivistas que insistem em matar a nossa democracia.
Rui Leitão

