O Carnaval dos anos 60 era, em sua essência, uma festa genuinamente popular, uma manifestação de euforia coletiva na qual o povo transformava suas dores e prazeres em canto, sátira e fantasia. As marchinhas, com sua irreverência, funcionavam como crônicas musicais do cotidiano, expondo costumes, desigualdades e tensões sociais sob a máscara do humor.
O Carnaval de rua reunia famílias inteiras, sem distinção de idade. A alegria tinha baixo custo e o ambiente era de relativa tranquilidade, antes que a violência urbana se tornasse um elemento permanente da paisagem social brasileira. As ruas se enchiam de pierrôs, colombinas, palhaços, piratas, zorros, odaliscas, marinheiros e mascarados, compondo um mosaico simbólico de uma sociedade que, ao menos por alguns dias, experimentava a ilusão da igualdade.
Nas tardes dos três dias de folia, a grande atração era o corso no centro da cidade, especialmente na Lagoa, no Parque Solon de Lucena. Os mais abastados seguiam o cortejo em carros luxuosos; os menos favorecidos, em caminhões e camionetes; enquanto a maioria do povo assistia de pé. Mesmo na festa, a estratificação social se fazia visível, embora ainda sem os mecanismos explícitos de segregação que hoje caracterizam os grandes eventos urbanos.
Confetes e serpentinas eram indispensáveis. A gurizada brincava com seringas d’água e com o tradicional “mela-mela” de talco. O lança-perfume era permitido, mas restrito aos que podiam pagar, antecipando a lógica de consumo que, décadas depois, se tornaria dominante na cultura festiva.
Os blocos desfilavam ao som de orquestras executando marchinhas como Me dá um dinheiro aí, Índio quer apito, Cabeleira do Zezé, Máscara Negra e Pó de Mico. Não havia trios elétricos nem abadás. O frevo e o samba eram os ritmos hegemônicos. Qualquer pessoa podia entrar no bloco, sem cordões de isolamento, sem áreas VIP, sem a mercantilização do espaço público. A rua era, efetivamente, um território democrático.
Os bailes mais elitizados ocorriam nos clubes Astrea, Cabo Branco e AABB, espaços que reproduziam as distinções de classe, mas que ainda coexistiam com uma vivência carnavalesca de ampla participação popular.
O Carnaval dos anos 60 guardava um romantismo que se perdeu. Na contemporaneidade, a festa foi capturada pela lógica do mercado e transformada em indústria cultural. Move grandes volumes de recursos financeiros, gera empregos temporários e integra estratégias de marketing turístico e político. A folia tornou-se produto, espetáculo programado, território de marcas e patrocínios, em que a espontaneidade foi substituída pela mercadoria e a convivência popular pela segmentação de classes.
O Carnaval deixou de ser apenas expressão cultural para tornar-se também instrumento de disputa simbólica, econômica e política. O povo continua presente, mas muitas vezes como consumidor ou figurante de um espetáculo que já não lhe pertence integralmente. Falta, à folia contemporânea, a naturalidade, a irreverência e o caráter subversivo que fizeram do Carnaval dos anos 60 uma celebração autêntica da alma popular brasileira.
Rui Leitão

