A conciliação como estratégia de poder Por: Rui Leitão

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As eleições gerais de 1982 evidenciaram o esgotamento político do regime militar, com derrotas expressivas nos três maiores estados da Federação — São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O resultado refletia o crescente repúdio popular ao governo Figueiredo e à própria ditadura, já pressionada pelas mobilizações sociais e pela campanha das Diretas Já. A sociedade brasileira sinalizava, de forma inequívoca, o desejo de retorno à democracia plena. Diante desse cenário, o regime entrava em crise de legitimidade, enquanto a oposição se fortalecia.

Havia, contudo, um obstáculo jurídico-político: a exigência da fidelidade partidária, prevista na Emenda Constitucional nº 1, de 1969, um instrumento autoritário criado para disciplinar parlamentares e neutralizar dissidências. A norma previa a perda do mandato para quem contrariasse as diretrizes partidárias, mecanismo típico de um sistema tutelado e avesso ao pluralismo. A recusa de parlamentares do PDS em apoiar Paulo Maluf expôs as fissuras internas do partido do governo e levou a uma consulta ao TSE sobre a aplicabilidade da fidelidade partidária ao Colégio Eleitoral. Em 27 de novembro de 1984, o Tribunal decidiu que os eleitores não estariam obrigados a seguir a orientação partidária, abrindo uma brecha institucional decisiva para uma ruptura controlada do regime.

Mesmo assim, os dissidentes do PDS optaram por uma solução política própria: fundaram o PFL (Partido da Frente Liberal), liderados pelo vice-presidente Aureliano Chaves e pelos senadores Marco Maciel e Jorge Bornhausen. O Manifesto da Frente Liberal propunha um “governo de conciliação nacional”, expressão que, na prática, traduzia uma transição negociada pelas elites, sem ruptura com as estruturas políticas, econômicas e institucionais herdadas da ditadura. José Sarney e Bornhausen renunciaram à direção do PDS, sinalizando o colapso do partido governista e abrindo caminho para um acordo com o PMDB, de Tancredo Neves, favorecido também pela desistência de Aureliano Chaves de disputar a Presidência.

O rompimento contou com a adesão de governadores e lideranças regionais, como Roberto Magalhães, Agripino Maia, Luiz Gonzaga Mota, Hugo Napoleão e Divaldo Suruagy, que passaram a compor o novo bloco político. Esse movimento evidenciava a migração calculada de parcelas da elite política do campo autoritário para o campo da transição, em busca de preservação de privilégios e continuidade de influência no novo arranjo institucional.

Incapaz de controlar a disputa interna no PDS, João Baptista Figueiredo reconheceu a falência de sua condução política e, em 29 de dezembro de 1983, declarou: “como não antevejo a possibilidade de alcançar o consenso que almejava, restituo a coordenação do processo sucessório ao meu partido”. A disputa entre Mário Andreazza e Paulo Maluf expôs a fragmentação do regime; prevaleceu Maluf, símbolo da continuidade autoritária, mas já sem capacidade de impor hegemonia.

A Frente Liberal foi decisiva para a formação da Aliança Democrática Nacional, que lançou a chapa Tancredo Neves/José Sarney contra Maluf/Flávio Marcílio, em 1985. A vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral representou a devolução formal do poder aos civis, mas consolidou uma transição conservadora, pactuada entre setores da oposição moderada e dissidências do regime.

Tratou-se de uma democratização negociada “pelo alto”, que evitou o enfrentamento com o legado autoritário, manteve intactas estruturas de poder e adiou reformas profundas reclamadas pelas ruas.

Rui Leitão

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