Rui Leitão: Duas Repúblicas, Um Mesmo Golpe

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Em 1954, durante um mês e oito dias, o mais emblemático quartel da Força Aérea Brasileira passou a ser conhecido como República do Galeão. Ali funcionou um IPM – Inquérito Policial Militar – criado para apurar o Atentado da Rua Tonelero, no Rio de Janeiro, no qual Carlos Lacerda foi baleado e o major da FAB Rubens Vaz assassinado. Na prática, porém, o Galeão transformou-se em um centro de poder excepcional, sobrepondo-se ao Judiciário, ao Congresso Nacional e à própria Presidência da República, rompendo a normalidade institucional. Por isso, historiadores apontam semelhanças evidentes com a chamada República de Curitiba, núcleo político-judicial da Operação Lava Jato, comandada pelo então juiz Sérgio Moro.

Os opositores de Getúlio Vargas instrumentalizaram o atentado como pretexto para deflagrar uma ofensiva política destinada a forçar sua renúncia. O episódio acirrou divisões nas Forças Armadas, especialmente na Aeronáutica. A investigação direcionada levou rapidamente ao nome de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente, acusado de ter contratado pistoleiros para executar Lacerda, em um processo marcado por pressões e interesses políticos explícitos.

Nos dois episódios históricos, o objetivo era claro: no século XX, afastar Vargas do poder; na segunda década do século XXI, impedir a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Na República do Galeão, esse intento foi viabilizado pela atuação articulada de promotores e oficiais do IPM, à margem das garantias legais e sob intensa exploração midiática. Na República de Curitiba, a motivação política manifestou-se de forma ainda mais explícita, com a atuação conjunta do juiz do processo, procuradores, delegados federais e desembargadores, contando, por longo período, com a complacência de tribunais superiores. O desfecho foi emblemático: Vargas foi empurrado ao suicídio; Lula foi preso, condenado sem provas consistentes e impedido de disputar a eleição presidencial de 2018.

O tiro no peito de Vargas e o encarceramento do candidato que liderava todas as pesquisas eleitorais produziram uma inflexão autoritária no cenário político nacional. A analogia histórica é inequívoca. Em ambos os momentos, setores do Judiciário, do Ministério Público e da imprensa atuaram de forma convergente, não como garantidores da democracia, mas como instrumentos de desestabilização institucional, a serviço de interesses políticos específicos. Nos anos 1950, havia a UDN e Carlos Lacerda; recentemente, formou-se uma frente determinada a eliminar o PT e Lula da vida pública. Se antes a Tribuna da Imprensa cumpria esse papel, hoje a mídia corporativa reacionária amplifica seletivamente acusações, vazamentos e espetáculos judiciais.

As duas “repúblicas” constituíram-se como estruturas paralelas de poder, voltadas a neutralizar forças políticas populares. A do Galeão mirou Vargas; a de Curitiba concentrou-se em Lula e no PT. Ambas recorreram a métodos semelhantes: criminalização seletiva, interrogatórios coercitivos, vazamentos ilegais e destruição de reputações. A República de Curitiba, assim, reeditou e sofisticou o roteiro de pressão política, manipulação midiática e judicialização da política inaugurado pela República do Galeão em 1954.

Rui Leitão

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