Viajar sempre fez parte da minha rotina de trabalho. Conheci muitas cidades brasileiras. Mas, durante muito tempo, passei ao largo daquilo que hoje mais me chama a atenção: os lugares onde a história deixou marcas. Monumentos, prédios antigos, espaços de memória quase nunca entravam no roteiro. É um descuido que o tempo cobra.
Esse olhar começou a mudar quando me casei com a historiadora Nadja Claudino. Desde então, cada viagem passou a carregar uma espécie de convite: conhecer não apenas a cidade que se vê, mas a que se lembra. Foi assim, no último fim de semana, em Recife, quando atravessamos o bairro de São José para visitar a antiga Casa de Detenção.
O prédio impõe respeito logo à primeira vista. Construído em 1855, funcionou como prisão por mais de um século. Hoje, abriga a Casa de Cultura de Pernambuco, onde artesanato e esculturas ocupam o espaço que um dia foi de grades e vigilância. Ainda assim, basta caminhar por seus corredores para perceber que ali a memória não se deixa apagar com facilidade. A cela de número 106 permanece concedendo aos visitantes uma visão de como funcionava na época.
A arquitetura, inovadora para o seu tempo, parece ter sido pensada para observar e controlar vidas. Quatro raios se cruzam, convergindo para um ponto central, sob uma cúpula metálica. No centro, a antiga torre de vigilância lembra que ali o olhar era constante, mesmo quando invisível. As celas, isoladas umas das outras, parecem guardar segredos que resistem ao tempo.
Mas o que mais me tocou naquele lugar foi saber que ali esteve preso — e foi morto — João Dantas, o homem que assassinou o presidente João Pessoa, então governador da Paraíba. O crime, ocorrido em 1930, na Confeitaria Glória, no Recife, ultrapassou o drama pessoal e tornou-se um fato político de proporções nacionais. Foi o estopim da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder e redesenhou a história do país.
João Dantas não morreu sozinho. Na mesma cela estava seu cunhado, o engenheiro pernambucano, Augusto Moreira Caldas. Ambos foram assassinados em circunstâncias que até hoje alimentam versões, disputas e interpretações. Alguns falam em vingança revolucionária. Outros, como o advogado Sandoval Caju, apontam para uma execução fria, praticada sob o disfarce de assistência médica. A história, como quase sempre, permanece aberta.
E há ainda Anayde Beiriz. Professora, poeta, mulher à frente do seu tempo. Apontada como amante de João Dantas, carregou sozinha o peso do escândalo, do preconceito e da exposição pública. Pouco depois, veio a morte — oficialmente um suicídio — e um enterro anônimo, como se fosse possível apagar sua existência. Talvez ela seja, entre todos, a vítima mais silenciosa dessa tragédia.
Ao sair da antiga Casa de Detenção, já transformada em espaço cultural, tive a sensação de que aqueles muros continuam falando. Não gritam, mas sussurram histórias de dor, poder, vingança e esquecimento. Histórias que também são nossas.
Visitar aquele lugar foi mais do que um passeio turístico. Foi um reencontro com capítulos da história que nos constituem, especialmente a nós, paraibanos. Um lembrete de que o passado não está apenas nos livros, mas nos espaços que resistem, esperando que alguém pare, olhe e escute.
Rui Leitão

