É notável como as circunstâncias históricas se invertem com rapidez surpreendente. São as voltas que o mundo dá — ou, mais precisamente, os movimentos abruptos de uma engrenagem política que, quando descontrolada, esmaga seus próprios operadores. A trajetória do ex-juiz Sérgio Moro sintetiza esse fenômeno. Alçado à condição de herói nacional por uma narrativa cuidadosamente construída, hoje se encontra em situação politicamente vexatória, sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal por suspeita de fraude em acordo de delação premiada. O símbolo máximo da suposta ética anticorrupção passou a representar exatamente aquilo que dizia combater.
O que se apresentou ao país como cruzada moral revelou-se, com o tempo, uma operação política travestida de justiça. Moro e setores do Ministério Público Federal do Paraná protagonizaram espetáculos midiáticos que violaram princípios elementares do Estado Democrático de Direito. A perseguição seletiva a determinados agentes públicos, escolhidos previamente como inimigos, ignorou o devido processo legal: combinaram estratégias processuais, pressionaram e chantagearam delatores, autorizaram conduções coercitivas sem respaldo jurídico, vazaram informações de forma criminosa e decretaram prisões sem provas materiais consistentes. Não se tratava de justiça, mas de lawfare — o uso do aparato jurídico como arma política.
A “persona” pública de Sérgio Moro foi fabricada com o apoio entusiasmado da grande mídia, da elite econômica e de setores das instituições do Estado, interessados na destruição de um projeto político popular e na reconfiguração autoritária do poder no Brasil. A engrenagem começou a ruir com a Vaza Jato, em junho de 2019, quando vieram à tona as entranhas de uma operação marcada pela promiscuidade entre juiz e acusação. O golpe decisivo ocorreu quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a parcialidade de Moro e anulou todas as suas decisões contra Lula, desmontando juridicamente o principal pilar da Lava Jato.
Antes mesmo desse julgamento histórico, Moro já havia abandonado a toga e aderido de forma explícita ao projeto político que ajudara a construir nos bastidores. Aceitou o cargo de Ministro da Justiça do governo resultante da fraude jurídica que alterou o curso da democracia brasileira, assumindo papel central na legitimação de um governo autoritário, antipopular e destrutivo das instituições. O juiz que dizia ser “técnico” revelou-se, sem disfarces, um agente político.
Ao deixar o ministério, tentou se capitalizar eleitoralmente sonhando com a Presidência da República. Demonstrou, porém, completo despreparo para a arena política. Ainda assim, conseguiu se eleger senador pelo Paraná, em um gesto oportunista que incluiu a traição a antigos aliados, como Álvaro Dias, confirmando que sua prática política não diferia da ética que sempre simulou possuir.
Heróis fabricados precisam de plateias manipuladas. Quando a farsa se desfaz, restam apenas os escombros morais. Sérgio Moro perdeu sua aura porque ela nunca foi sustentada pela legalidade, mas pelo espetáculo. Sua derrocada confirma que projetos autoritários baseados na exceção jurídica tendem a devorar seus próprios protagonistas.
Nesse contexto, soa quase profética a declaração de Lula, feita durante uma audiência presidida por Moro, quando ainda se encontrava na condição de preso político:
“Doutor, esses mesmos que hoje me atacam, se perceberem que serei absolvido, prepare-se, porque os ataques ao senhor serão muito mais fortes do que aqueles dirigidos a ministros da Suprema Corte que não pensam como a imprensa brasileira.”
A história confirmou o alerta. Como se diz nas rodas de conversa do povo: o mundo não gira — ele capota.
Rui Leitão

