O julgamento das ações humanas deve ser baseado na verdade dos fatos. Mas o que é a verdade? Segundo Platão, “verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são; falso, aquele que as diz como não são”. A partir dessa afirmação, chegamos a um entendimento perigoso: o de que estaríamos sempre intimados a acreditar no que divulga a mídia ou nos discursos de convencimento de certos políticos e daqueles que se julgam capazes de manipular consciências. Trata-se da verdade falseada por segundas intenções.
É no conjunto ético e moral de uma sociedade que encontramos parâmetros para a noção de “verdade”. Quando estamos inseridos em uma sociedade corrompida, essa verdade fica comprometida, e os julgamentos passam a ser arriscadamente contrários aos princípios da justiça.
Nossa experiência pessoal, construída no ambiente social em que vivemos, é o que nos induz a adotar pressupostos sobre pessoas, fatos e circunstâncias. Por isso, tais pressupostos são passíveis de equívocos e frequentemente distanciados da verdade. A ilusão da verdade domina nossa consciência crítica. Somos permanentemente bombardeados por informações falsas ou propositalmente incompletas e, com base nelas, formamos opiniões que passamos a considerar verdadeiras.
A História nos mostra que, muitas vezes, aquilo que entendíamos como verdade absoluta revelou-se falso. Incorremos reiteradamente em interpretações errôneas que nos conduzem a cometer injustiças. Daí o perigo do pré-julgamento. Quando nos antecipamos ao julgar pessoas e situações sem a devida preocupação em nos aproximarmos da verdade, somos guiados por emoções, paixões, interesses pessoais ou pela influência de terceiros.
Nós, simples mortais, jamais conheceremos a verdade absoluta. Ainda assim, podemos — e devemos — ser prudentes na aceitação daquilo que, num primeiro momento, nos parece verossímil. Se permitirmos que a emoção se sobreponha à razão, estaremos fadados a aceitar verdades convenientes, ainda que saibamos estarem contaminadas por falsidades.
O que pode parecer bom para nós individualmente pode ser prejudicial para outros ou para a coletividade.
Uma das regras básicas da propaganda enganosa é a máxima atribuída ao nazista Joseph Goebbels: “uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade”. São mentiras com aparência de verdade. Profissionais inescrupulosos do marketing se aproveitam dessa característica da psicologia humana — a tendência a acreditar no que é repetido — transformando-a em técnica de persuasão. A repetição mascara a verdade. Nossas mentes tornam-se presas fáceis da chamada ilusão da verdade, também conhecida como efeito de validação.
Vale refletir sobre tudo isso sempre que nos sentirmos tentados a apontar o dedo para acusar alguém, repetindo informações sem o cuidado de verificar sua veracidade. Quanto menor o esforço cognitivo exigido por uma informação, mais facilmente ela é absorvida. É assim que funciona a engrenagem das notícias falsas, as chamadas fake news. A ilusão da verdade é, muitas vezes, mãe da injustiça.
Rui Leitão

