A TENTAÇÃO DINÁSTICA DA EXTREMA-DIREITA BRASILEIRA

admin
3 Leitura mínima

É perceptível que a extrema-direita brasileira, ao assumir o poder com a eleição presidencial de 2018, buscou afirmar uma compreensão política segundo a qual o presidente é a Constituição, projetando-se acima das instituições e adotando um projeto familiarista de poder. Como se o presidente pudesse governar de forma centralizada e personalista, numa espécie de “presidencialismo imperial”. O ex-presidente chegou a afirmar, em abril de 2020: “eu sou realmente a Constituição”.

A pauta conservadora defendida pelos que atuam na linha ideológica da direita radical trabalha no sentido de fazer preponderar uma prática política que reproduz o imaginário patriarcal do Brasil Colônia, centrado no hiperdimensionamento da imagem do chefe de governo. É o que podemos chamar de “presidencialismo imperial”: um sistema em que se pretende conferir ao presidente uma maior concentração de poder, como se as instituições da República lhe devessem obediência. Dá-se ênfase à figura do líder forte que não se constrange em procurar solapar as estruturas do Estado no exercício de suas funções. Esse estilo de governar se apoia em dois pilares: o autoritarismo militar positivista e o liberalismo autoritário.

O interessante é que temos testemunhado, de forma pública, a intenção de se estabelecer o princípio da hereditariedade na transmissão do poder, como se fosse possível instituir uma nova dinastia, de modo que a linha sucessória se desse dentro da mesma família. Nessa lógica é que a extrema-direita tem exercido pressão para que, na chapa presidencial do próximo ano, esteja incluído um nome da família do ex-presidente. Talvez por isso ele classifique os filhos como 01, 02, 03 e 04, já estabelecendo uma ordem sucessória. Na impossibilidade de ser um dos filhos, que seja a esposa. Trata-se de uma estratégia para tornar a organização política por ele liderada duradoura e dominante no debate público, já que ele estará preso e, portanto, fora do contexto político nacional.

É o uso do Estado como trincheira para transformar a República em propriedade privada. O discurso de combate à “velha política” é contrariado pela prática. O ciclo autoritário, com aparência democrática, que se pretendeu implantar, tenta se manter, observando o que comentaristas políticos chamam de “presidencialismo imperial”. Essa linhagem política, construída por filhos, esposa, ex-mulheres e outros parentes, conseguiu montar uma máquina que se imagina mais forte que os partidos, na qual os vínculos familiares são mais importantes que os vínculos partidários. O Brasil não pode ficar refém de uma pretensa dinastia.

Rui Leitão

Compartilhe esta notícia
Deixe um comentário