Impressiona como, ainda hoje, a tentação autoritária se faz presente na consciência política de parte significativa da população brasileira. Os arrivistas estão por aí pregando a ruptura democrática, sonhando com um poder militarizado — ainda que a experiência recente com fardados na política e em cargos públicos tenha sido desastrosa. Mesmo assim, persiste o desejo, em alguns, de ver o Brasil mergulhado numa quartelada. A democracia continua, a todo instante, sendo ameaçada.
O fantasma do totalitarismo segue nos rondando. A apologia aos regimes ditatoriais tornou-se estratégia de marketing político, já que a extrema direita saiu do armário sem qualquer constrangimento. E tenta se apresentar com uma imagem de cordialidade e moralismo, alicerçada em fundamentalismo religioso — embora, contraditoriamente, se valha da retórica da violência, do desrespeito aos direitos humanos, dos preconceitos e do ódio a quem pensa diferente. E o pior: esses arroubos totalitários têm recebido a chancela do maior símbolo da democracia — o voto. Ainda bem que, na última eleição presidencial, conseguimos ser majoritários. Mas muitos reacionários conquistaram assentos no Parlamento, dificultando a adoção de pautas políticas progressistas.
Parte do eleitorado mantém-se seduzida pelo discurso retrógrado da extrema direita. Sabemos que o militarismo no Brasil tem origem no Império, e que a República se instalou por meio de um golpe militar. Em nome do que consideram a “normalidade democrática”, vimos ao longo da história a repetição de intervenções armadas, sempre precedidas por manifestações populares que as legitimaram. O imaginário do militarismo permanece vivo em considerável parcela do eleitorado brasileiro.
Com isso, temos um país dividido. Pacificar a Nação é uma tarefa histórica que desafia cada geração. Mas não tem sido fácil.
Conseguiram plantar a semente da discórdia e do confronto político-ideológico nas famílias e em todos os ambientes sociais. Caberá às futuras gerações conter essa “tentação totalitária” que ainda se revela latente entre nós. Não podemos aceitar a naturalidade com que se encara a exclusão social, política e cultural dos que não pertencem à escala superior da sociedade. É inadmissível o estímulo à violência. Inaceitável a ideia do pensamento único, sem divergências nem contraditório — tão essenciais ao exercício da democracia plena.
O totalitarismo tem como objetivo maior enfraquecer os princípios fundamentais da democracia. Há um trabalho articulado para concentrar o poder e eliminar adversários necessários ao jogo democrático — seja no Legislativo, no Judiciário ou na sociedade civil. É muito preocupante testemunhar chefes de Estado que agem deliberadamente para provocar a erosão das instituições. A governança democrática precisa ser fortalecida para que possamos resistir aos ímpetos autoritários. Proteger a democracia é mais do que um dever — é uma urgência civilizatória.
As lideranças políticas tomadas pela tentação autoritária revelam a compulsão humana de se fixar na ignorância, esquecendo que são providas de inteligência. Será que são mesmo? Acham chique exibir ignorância, comportando-se como fanfarrões irresponsáveis e incivilizados. A tentação totalitária nasce do deslumbramento com o poder e da vaidade de quem confunde força com grandeza. A partidarização dos quartéis e o enfraquecimento das instituições democráticas já foram experimentados com redundante fracasso, mas deixaram fiéis apoiadores que se recusam a enxergar o óbvio. Hoje, já é possível distinguir os militares que rejeitam a aventura golpista daqueles que conservam o espírito autoritário herdado dos anos de chumbo. Líderes que retiram as máscaras de democratas e optam por um populismo que descamba para o autoritarismo, pregando um ideário conservador e salvacionista, lançam propostas de endurecimento do regime.
Acabemos com a guerra das patrulhas ideológicas. Nas democracias constitucionais, os fins não justificam os meios. O poder sem limites leva à barbárie. Afastemos, pois, esses ainda persistentes delírios autocráticos.
E que viva a liberdade. Ditadura, nunca mais.

