Francis Fukuyama, economista, cientista político e um dos principais assessores intelectuais do presidente norte-americano Ronald Reagan, publicou em 1989, na revista The National Interest, o artigo intitulado “O fim da história”, no qual defendia a tese de que a difusão mundial das democracias liberais e do capitalismo de mercado apontava para o fim ideológico da humanidade. Essas ideias seriam aprofundadas três anos mais tarde, com o lançamento do livro “O fim da história e o último homem” (1992).
Naquele momento, o mundo atravessava uma profunda crise ideológica. A União Soviética encontrava-se em franca decadência, iniciando seu processo de abertura e desintegração, simbolizado pela queda do Muro de Berlim em 1989. Essa transformação desencadeou movimentos separatistas nas nações que faziam parte do bloco socialista. Na América Latina, diversos países sob regimes autoritários vivenciavam fortes mobilizações em prol da redemocratização. No Brasil, por exemplo, acontecia a primeira eleição direta para presidente após o período da ditadura militar.
Nesse contexto de transição, Fukuyama defendeu que estava surgindo um “novo caminho político”, fundamentado na democracia liberal. Segundo ele, as nações recém-democratizadas deveriam adotar o modelo capitalista e o liberalismo econômico como as melhores alternativas de organização política e sobrevivência econômica. Em sua visão, o sistema político norte-americano representava o ponto culminante da evolução política da humanidade, o que significava, em termos simbólicos, o fim das disputas ideológicas entre capitalismo e socialismo.
Passadas mais de três décadas, as ideias de Fukuyama continuam gerando intensos debates e críticas. Conservadores, liberais e marxistas questionaram a validade de sua tese. Em 2007, o historiador britânico Eric Hobsbawm ironizou a proposta ao afirmar:
“Quando caiu o Muro de Berlim, um americano incauto anunciou o fim da história. Evito, portanto, usar uma expressão tão claramente desacreditada.”
A noção de um fim da história — entendido como o triunfo definitivo da democracia liberal — foi vista por muitos intelectuais como ingênua e contraditória, pois proclamava o fim das utopias ao mesmo tempo em que criava uma nova: a do triunfo inevitável do capitalismo liberal.
Fukuyama acreditava que, após o colapso do comunismo e o declínio do socialismo soviético, a democracia liberal ocidental triunfaria como forma política universal, acompanhada da economia de mercado como modelo econômico dominante. A verdade é que nem o receituário neoliberal, nem os avanços tecnológicos deram um “final” à história. As contradições do capitalismo se aprofundaram, ampliando os conflitos sociais e concentrando ainda mais a renda, o que favoreceu o surgimento de lideranças políticas populistas e autoritárias, em desacordo com os ideais liberais defendidos por Fukuyama.
Ainda assim, sua linha de raciocínio não pode ser desconsiderada, pois oferece uma reflexão relevante e provocadora sobre os rumos da política e da economia mundiais no pós-Guerra Fria, dialogando com interpretações históricas e econômicas consolidadas no meio acadêmico. E a História continua, sempre se renovando com novos métodos, teorias e evidências.

