R$ 1,3 milhão por 1h20 de show: quando o espetáculo custa mais que as prioridades do povo

Redação
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Por Silvano Silva

A polêmica envolvendo o cancelamento de shows sertanejos em diferentes cidades do Nordeste reacende uma discussão que precisa ir muito além da música, dos artistas ou da preferência de cada público: afinal, quais devem ser as prioridades de uma administração pública quando o assunto é gastar o dinheiro do contribuinte?

Não se trata de ser contra festas, grandes eventos ou apresentações de artistas conhecidos nacionalmente. A cultura movimenta a economia, gera empregos, atrai visitantes e também faz parte da identidade de um povo. O problema começa quando os valores destinados ao entretenimento parecem não encontrar o mesmo espaço de preocupação quando o assunto são as necessidades básicas da população.

E é impossível não trazer essa discussão para a realidade de Alagoinha, na Paraíba.

Segundo os dados da contratação apresentados, a Prefeitura de Alagoinha deverá desembolsar R$ 1,3 milhão para a apresentação de Wesley Safadão, por meio da empresa WS Shows LTDA. A contratação ocorreu por dispensa de licitação, com contrato assinado em 3 de setembro, e o show está previsto para o dia 26 de dezembro, com duração de 1 hora e 20 minutos.

Façamos uma conta simples: são aproximadamente R$ 16,2 mil por minuto de apresentação.

É um número que chama atenção e merece reflexão. Não porque o artista não tenha valor, não porque o público não mereça diversão, mas porque estamos falando de dinheiro público. E dinheiro público exige responsabilidade, transparência e, acima de tudo, compromisso com o interesse coletivo.

Conhecendo a realidade de Alagoinha e observando as necessidades que ainda existem em municípios de pequeno porte, fica uma pergunta inevitável: será que não existem outras prioridades que mereceriam receber uma parcela tão significativa desses recursos?

Quantas demandas poderiam ser atendidas com R$ 1,3 milhão? Quanto esse dinheiro poderia representar em melhorias na saúde, na educação, na infraestrutura, na assistência social, na valorização dos profissionais, na cultura local e em tantas outras políticas públicas que fazem diferença na vida das pessoas?

Não estou afirmando que uma festa não possa gerar retorno econômico ou que todo investimento em entretenimento seja desperdício. O que questiono é a dimensão do gasto diante das necessidades de uma cidade e a responsabilidade de quem administra os recursos que pertencem à população.

A discussão também precisa considerar a transparência. Uma contratação pública não deve ser analisada apenas pelo nome do artista ou pela expectativa de uma grande festa. É necessário conhecer a justificativa, a disponibilidade orçamentária, a origem dos recursos, os critérios adotados e os benefícios concretos esperados para o município.

O episódio de Coxixola, também na Paraíba, que gerou questionamentos envolvendo uma contratação artística e recursos públicos, é outro exemplo de como esse tipo de despesa precisa ser acompanhado com atenção pelos órgãos de fiscalização e pela sociedade.

O dinheiro público não pode ser tratado como se fosse propriedade de quem ocupa temporariamente uma cadeira no poder. O gestor não administra o próprio patrimônio. Administra recursos que pertencem ao povo e, por isso, precisa prestar contas de cada decisão.

É importante dizer também que não se trata de colocar o artista contra o cidadão. Wesley Safadão é um profissional do entretenimento, e sua contratação deve ser analisada dentro dos critérios legais, administrativos e financeiros. A crítica aqui é direcionada às escolhas de quem governa e à responsabilidade de estabelecer prioridades.

Uma cidade não se desenvolve apenas com palcos iluminados, grandes atrações e multidões reunidas em uma praça. Desenvolve-se quando a população tem acesso a serviços de saúde de qualidade, escolas estruturadas, ruas em boas condições, oportunidades de trabalho, assistência social e políticas públicas capazes de transformar realidades.

A festa pode durar uma noite. O compromisso com a população precisa durar o ano inteiro.

E talvez a pergunta mais importante não seja quanto custa trazer um artista famoso, mas quanto custa deixar de investir nas necessidades de uma cidade.

O povo gosta de festa, merece lazer e tem direito à cultura. Mas também precisa de respeito, dignidade e serviços públicos que funcionem.

Governar não é apenas proporcionar momentos de alegria. É garantir condições para que as pessoas tenham uma vida melhor depois que o último acorde da festa terminar.

Porque, no final das contas, o dinheiro é público, as prioridades deveriam ser coletivas e a responsabilidade precisa ter endereço: a gestão que decide como gastar.

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