LULA: ENTRE O AMOR E O ÓDIO Por Rui Leitão

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Inicio este texto evocando a canção “As Aparências Enganam”, de Sérgio Natureza e Tunai, imortalizada na voz de Elis Regina. Nos versos “As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam / Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões” encontra-se uma síntese precisa do Brasil contemporâneo. Poucas figuras expressam tão bem essa tensão quanto Luiz Inácio Lula da Silva.

O país segue prisioneiro de heranças profundas. Não superamos por completo o ranço colonial, escravocrata e excludente que moldou nossa formação social. Isso se revela na maneira como parcelas da sociedade reagem à presença de Lula no centro da vida política. De um lado, admiração, respeito e identificação. De outro, um ódio que, muitas vezes, prescinde de explicações racionais e se manifesta como rejeição visceral.

Há quem atribua essa polarização apenas ao campo ideológico. Mas essa leitura, embora conveniente, parece insuficiente. O que se percebe, em muitos casos, é algo mais profundo: o incômodo histórico diante da ascensão de um líder que rompeu padrões. Um ex-operário, nordestino, oriundo das camadas populares, que chegou à Presidência da República pelo voto, desafiando estruturas simbólicas arraigadas.
A narrativa de que Lula representaria uma ameaça comunista não resiste ao confronto com os fatos.

Durante seus governos, o país experimentou crescimento econômico, inclusão social e estabilidade institucional, sem ruptura com a ordem democrática ou com o sistema de mercado. Ao contrário: setores da economia, da indústria ao agronegócio, do comércio ao sistema financeiro, obtiveram resultados expressivos.

Ainda assim, persiste a resistência. Parte das elites brasileiras, ainda ancorada no imaginário da casa-grande, demonstra dificuldade em reconhecer o lugar histórico que Lula ocupa. As políticas de inclusão social, a ampliação de oportunidades e a tentativa de reduzir desigualdades não são vistas apenas como medidas de governo, mas como afrontas simbólicas a uma ordem tradicional.

A isso se soma o papel de segmentos da mídia, que frequentemente tratam sua trajetória de forma seletiva, omitindo ou relativizando o reconhecimento internacional que o líder brasileiro conquistou. Não por acaso, observadores estrangeiros costumam enxergar com mais nitidez aquilo que, internamente, ainda se contesta.

O diplomata Milton Rondó sintetizou essa contradição ao afirmar que Lula é mais aceito pelo establishment internacional do que pelas oligarquias locais. A frase expõe um país dividido não apenas por ideias, mas por visões de mundo e por disputas de pertencimento social.

No fim, permanece a pergunta inevitável: que Brasil queremos construir? Um país guiado pelo ressentimento, pela exclusão e pelo ódio, ou uma nação que, mesmo em meio às divergências, seja capaz de reconhecer sua diversidade, valorizar suas origens e apostar na convivência democrática?

Entre o amor e o ódio, o que está em jogo não é apenas a figura de um líder, mas o próprio futuro do Brasil.

Por Rui Leitão

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