Há uma espécie que prolifera com facilidade no terreno movediço da vida pública: os desmemoriados da política. São aqueles que, por conveniência ou má-fé, fingem desconhecer os fatos de ontem para melhor manipular as emoções de hoje. Vestem a fantasia do “novo”, mas adotam velhas práticas no comportamento.
A desmemória, nesse caso, não é falha inocente. É método calculado. Reescrevem acontecimentos, apagam responsabilidades, distorcem contextos. Tratam a história como se fosse um quadro-negro onde se pode passar o apagador sempre que o passado se torna incômodo. Forjam narrativas sob medida, simplificam o que é complexo e reduzem processos históricos a slogans de fácil consumo.
O Brasil recente é pródigo em exemplos. O processo que resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi chamado por uns de golpe, por outros de rito constitucional. Independentemente da posição assumida, o que não se pode admitir é a simplificação grosseira dos fatos, como se tudo tivesse ocorrido num vácuo político. Houve crise econômica, disputa aberta entre Poderes, pressões das ruas, articulações intensas nos bastidores. Ignorar esse contexto é optar pela conveniência em detrimento da verdade.
Do mesmo modo, a ascensão e posterior derrota eleitoral de Jair Bolsonaro produziram discursos apaixonados, muitas vezes divorciados da realidade concreta. Há os que hoje negam o que ontem defendiam com fervor, como se não houvesse registros, vídeos e declarações públicas. A internet transformou-se no maior arquivo da memória contemporânea — e, paradoxalmente, cresce o esforço para negar o que está documentado.
Os desmemoriados prosperam, também, na fragilidade educacional. Uma sociedade que não cultiva o estudo da história e não estimula o pensamento crítico torna-se presa fácil de versões superficiais. O desprezo pelo conhecimento costuma caminhar de mãos dadas com impulsos autoritários. Quem desconhece o passado dificilmente reconhece os sinais do retrocesso quando eles se apresentam com novas roupagens.
Recordar não é cultivar ressentimentos. É exercer cidadania. A memória política funciona como instrumento de vigilância democrática: permite comparar discursos e práticas, promessas e resultados, intenções declaradas e ações efetivas. Sem memória, o eleitor transforma-se em massa de manobra; com memória, torna-se sujeito consciente da própria escolha.
Em tempos de polarização intensa e avalanche informativa, esquecer parece mais confortável do que refletir. Mas a história não é um fardo a ser descartado; é farol que ilumina as encruzilhadas do presente. Nenhuma crise institucional nasce do nada. Nenhum projeto de poder surge por geração espontânea. Tudo tem causa, contexto e consequência.
A política brasileira precisa de menos desmemória e mais honestidade intelectual. Porque quem esquece o que foi feito ontem corre o risco de aplaudir amanhã aquilo que ontem condenava. E essa incoerência repetida, naturalizada e celebrada corrói, pouco a pouco, a própria ideia de democracia.
Rui Leitão

