Editorial – Quando o discurso não combina com a prática na Câmara de Bayeux

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A recente declaração da presidente da Câmara Municipal de Bayeux, vereadora Jays de Nita, divulgada nas redes sociais e na imprensa local, levanta questionamentos que vão além da retórica institucional. Ao anunciar medidas contra vereadores por suposta “arruaça” e justificar suas decisões com base em uma ordem judicial que reduz cargos comissionados, a presidente tentou se colocar como símbolo de moralidade administrativa. No entanto, o próprio discurso revela contradições que precisam ser examinadas com rigor.

Ao citar a frase do ex-governador Ronaldo Cunha Lima — “política é sacerdócio, não negócio” — a presidente buscou vestir o figurino de gestora comprometida com o interesse público. Mas essa máxima exige coerência. Se política não é negócio, também não pode ser tratada como extensão de interesses familiares ou políticos. E é exatamente essa a percepção que cresce nos bastidores políticos de Bayeux: a de que a Câmara Municipal estaria sendo administrada como um espaço alinhado ao grupo político da prefeita Tacyana Leitão, e não como um poder independente.

A decisão judicial que determinou a redução de cargos comissionados deveria, em tese, atingir todos de forma isonômica. No entanto, a pergunta que ecoa nos corredores políticos é inevitável: a aplicação dessa decisão será realmente igual para todos os vereadores ou servirá como instrumento para enfraquecer apenas os parlamentares de oposição?
Se cargos ligados a vereadores alinhados à prefeita forem preservados enquanto os da oposição forem reduzidos, o discurso moralizante perderá qualquer credibilidade.

Mais grave ainda foi o tom adotado em episódios recentes dentro do plenário. Relatos indicam que a presidente se referiu a um vereador afirmando que ele “falava fino” quando outro ocupava a presidência da Casa. Esse tipo de declaração não condiz com a postura institucional esperada de quem preside um Poder Legislativo. A presidência da Câmara exige equilíbrio, serenidade e respeito — inclusive com adversários políticos. Não se trata de um cargo partidário, mas de uma função institucional.

Também causa estranheza a interrupção de sessões sob justificativas consideradas frágeis justamente quando vereadores levantavam críticas à administração municipal. Quando o uso da mesa diretora coincide sistematicamente com a contenção de denúncias ou questionamentos ao Executivo, surge uma dúvida legítima: a presidência está protegendo a instituição ou protegendo a gestão municipal?

A Constituição é clara ao estabelecer que o Legislativo deve ser harmônico com o Executivo, mas independente. Câmara Municipal não pode se transformar em puxadinho da Prefeitura.

Outro ponto que chama atenção é o silêncio institucional diante dos ataques dirigidos à vereadora Eloah. Se a presidente afirma combater a desordem e a falta de respeito no parlamento, deveria agir com a mesma firmeza quando uma mulher eleita é alvo de críticas agressivas e campanhas de desqualificação política atribuídas a aliados do grupo governista, incluindo nomes ligados ao deputado Felipe Leitão.

A pergunta é simples e direta: por que a firmeza institucional aparece contra a oposição, mas desaparece quando os ataques partem de aliados do governo municipal?

Se a Câmara é a casa do povo, a presidência deve representar todos os vereadores — não apenas os que apoiam a prefeita. A autoridade da presidente não pode ser seletiva.

O discurso de moralidade administrativa só se sustenta quando acompanhado de imparcialidade. Caso contrário, transforma-se apenas em narrativa política.

Talvez seja o momento de a própria presidente refletir sobre a frase que escolheu citar. Se política é sacerdócio, exige desprendimento. Exige neutralidade institucional. Exige respeito à divergência.

E, sobretudo, exige que a Câmara Municipal seja tratada como poder público — não como patrimônio político de um grupo.

Alexandre Kennedy – Pauta das 20

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