A Sapucaí como crônica do Brasil Por Rui Leitão

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O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, ocorrido na noite do sábado de Carnaval, no Rio de Janeiro, produziu uma polêmica reveladora do quanto a cultura popular ainda causa incômodos nas elites políticas quando ousa abordar temas que as contrariam. Setores conservadores tentam deslegitimar o direito do Carnaval se posicionar, produzindo um discurso que acusa a escola de fazer propaganda política antecipada, ignorando que toda manifestação cultural é, inevitavelmente, política.

O que se viu na Marquês de Sapucaí foi um gesto de afirmação cultural e democrática, reafirmando a compreensão de que o Carnaval é, por excelência, um espaço de pedagogia social. A biografia de um líder popular transformada em samba-enredo celebra a possibilidade de o povo reivindicar seu lugar na história. Ao narrar a saga do retirante nordestino que se torna líder sindical e, posteriormente, presidente da República por três mandatos, o enredo construiu uma epopeia popular, na qual a ascensão social não aparece como exceção individual, mas como expressão de um projeto coletivo de nação.

A Acadêmicos de Niterói inscreveu-se na tradição das escolas que transformaram a avenida em tribuna pública, onde a memória dos oprimidos e excluídos encontra voz e visibilidade, ultrapassando os limites do espetáculo carnavalesco para se converter em acontecimento político-cultural de grande densidade simbólica. Ao escolher como enredo a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, a escola não apenas homenageou um personagem central da história recente do Brasil, mas também interveio na disputa de narrativas sobre o país, sua democracia e suas classes populares.

O Carnaval, desde suas origens, jamais foi um evento exclusivamente de entretenimento. Sempre foi o momento em que o povo reescreve a história, transformando a política em linguagem estética e reafirmando sua tradição de festa urbana democrática e de resistência. A exaltação de Dona Lindu, Zuzu Angel, Henfil, Betinho, Vladimir Herzog, entre outros, nos carros alegóricos, complementou a denúncia histórica de um tempo em que a cultura foi monitorada e a censura se converteu em método, punindo, inclusive com a morte, os que ousaram desafiar o autoritarismo vigente por 21 anos após o Golpe de 1964.

A relação entre arte e política atravessa a história da humanidade. No período momesco, tornou-se comum, especialmente no Brasil, o engajamento político como manifestação artística.
Os enredos das escolas de samba adquirem dramaturgia própria, voltada para os problemas sociais e os dilemas políticos. Evidentemente, críticas e sátiras despertam iras e descontentamentos. Porém, é preciso compreender que a democracia carnavalesca não pode ser tratada como fantasia descartável, retirada e lançada às cinzas antes mesmo da quarta-feira.

Silenciar o Carnaval é colocar sob ameaça a própria ordem democrática, na qual política e sociedade devem ser questionadas com humor, criatividade e irreverência. Entre metáforas e ritmo, o Carnaval revela-se linguagem política e instrumento de resistência.

Quando tentam esconder a crítica política e as verdades históricas, apenas confirmam que elas se faziam necessárias. As arquibancadas perceberam isso, aplaudindo e cantando o enredo da Acadêmicos de Niterói. O Carnaval é o lugar onde o povo ensina a liberdade. E o importante é que a escola fez história. Tornou-se o assunto dominante do desfile deste ano. Cumpriu seu papel.

Rui Leitão

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