O cinema foi, por muito tempo, o meu principal espaço de lazer e formação cultural. Era o programa dos fins de semana e o lugar onde a cidade se encontrava. As salas espalhavam-se pelos bairros e integravam a paisagem urbana. Naquele tempo, ainda não existiam televisão nem shoppings; o cinema era, portanto, o grande espaço de convivência social da minha geração.
Nos anos 60, João Pessoa possuía treze cinemas. Três eram considerados mais confortáveis e ficavam no centro da cidade: Rex, Plaza e Municipal. Nos bairros, funcionavam o Jaguaribe, Santo Antônio e São José, em Jaguaribe; o Glória e o Bela Vista, em Cruz das Armas; e o Torre. Próximos ao Centro, havia ainda o Metrópole, no início da avenida Juarez Távora; o Astória e o Felipeia, na rua da República; e o Brasil, na Praça Aristides Lobo.
Os cinemas eram também espaços de encontro, sobretudo dos namorados. Mas a liberdade era vigiada. A figura do “lanterninha” estava sempre presente, conduzindo os retardatários aos seus lugares e observando atentamente os casais mais afoitos.
Com o tempo, os cinemas migraram para os centros comerciais, tornando-se atrações dos shoppings. Esse deslocamento significou a exclusão de parcelas importantes da população. O que antes era um espaço democrático transformou-se em um lazer elitizado, acessível apenas a quem pode frequentar esses ambientes.
Raramente tenho voltado ao cinema. Não por seletividade, mas por preferir que essa forma de lazer volte a ser popular, como foi no meu tempo. A televisão e os vídeos não conseguiram substituí-lo. Apesar das transformações e da segregação social, o cinema continua sendo uma fonte de cultura que precisa ser preservada e devolvida ao povo.
Rui Leitão

