A PEC que desafia a escala 6×1 não é apenas uma proposta legislativa: é um chamado à ruptura com um modelo de exploração que atravessa gerações. Seu maior mérito é justamente este: recolocar no centro do debate nacional a pergunta que muitos preferem evitar — até quando o trabalhador brasileiro será submetido a uma rotina que corrói sua saúde, seu tempo e sua vida?
A verdade é que a discussão sobre jornada de trabalho só avança quando a sociedade empurra, porque o Congresso raramente se move sem pressão popular. Desde 1988, quando se reduziu de 48 para 44 horas semanais, toda tentativa subsequente de diminuição foi arquivada, ignorada ou sabotada. As PECs do senador Paulo Paim e do deputado Reginaldo Lopes estão paradas há anos, como tantas outras que interessam ao povo, mas contrariam os donos do poder econômico.
A proposta apresentada pela deputada Érika Hilton (PSOL-SP) rompeu esse silêncio conveniente. Ao propor a semana de 36 horas e a escala 4×3, ela não cometeu um excesso — cometeu, sim, um ato de coragem política, devolvendo ao debate público um tema sequestrado pelo medo patronal de qualquer mudança que reduza seu controle sobre o tempo alheio. E fez isso inspirada no movimento Vida Além do Trabalho, lembrando que a pauta é urgente, humana e inadiável.
Não falo aqui como especialista, mas como cidadão. E como cidadão, recuso a naturalização de um sistema que trata trabalhadores como peças substituíveis. A relação entre capital e trabalho nunca foi equilibrada; é um cabo de guerra onde um lado dispõe de força, dinheiro, lobby e influência, enquanto o outro luta com a própria vida, seu corpo, sua saúde e seu tempo.
É por isso que a resistência patronal é sempre a mesma. Quando a proposta favorece o trabalhador, o discurso se repete como um mantra desesperado: “O Brasil vai quebrar.” Foi assim com o fim da escravidão, com as leis de Vargas, com o 13º salário, com o aumento real do salário mínimo. Em todas essas ocasiões, setores empresariais gritaram que o país entraria em colapso. E, em todas elas, a economia cresceu. Essa é a história: a classe trabalhadora avança, e os profetas do apocalipse quebram a cara.
O exemplo de 1962 é emblemático: O Globo estampou que o 13º seria “desastroso para o país”. Passadas seis décadas, o desastre só existe na memória de quem tentou evitar que o povo tivesse um direito básico. A choradeira patronal é antiga — e sempre movida pelo medo de perder poder, jamais pelo amor à economia.
Não é razoável, não é justo, não é humano manter milhões de brasileiros presos a uma escala 6×1 que rouba descanso, destrói famílias, adoece mentes e compromete vidas. Não há país desenvolvido que trate seu povo dessa maneira.
A PEC não precisa ser aprovada tal como está. Mas é o instrumento que temos para abrir a porta que muitos querem manter trancada. Seus críticos argumentam que é “radical”. Radical, isso sim, é tratar o desgaste físico e mental do trabalhador como efeito colateral aceitável. Radical é exigir tanto e oferecer tão pouco. Radical é a desigualdade naturalizada.
A redução da jornada deve ser construída com responsabilidade, mas também com coragem. Gradual, se necessário; negociada, se possível. Mas nunca adiada pela covardia histórica de quem insiste em dizer que melhorar a vida do trabalhador é uma ameaça ao país.
Não é. A ameaça ao país é continuar como está.
Porque do jeito que está, é a vida do trabalhador que quebra — e não a economia. Por isso, a PEC não é apenas oportuna: é urgente. E, acima de tudo, indispensável.
Rui Leitão

