Até o século XVIII, grande parte da humanidade ainda vivia sob o obscurantismo, quando a ciência era desprezada e o poder se legitimava pelo direito divino. O surgimento dos pensadores iluministas rompeu com essa lógica, inaugurando uma era de racionalidade e liberdade intelectual. Eles buscaram explicações baseadas na razão para os fenômenos naturais e sociais, e dividiram-se entre filósofos — voltados aos problemas políticos, religiosos e morais — e economistas, preocupados com a administração das riquezas. Foram os precursores das transformações que culminaram na Revolução Francesa.
O Iluminismo ofereceu novas luzes ao conhecimento humano. Defendia o pensamento crítico, o questionamento da fé cega e a liberdade de expressão. Entre seus expoentes figuram John Locke, defensor dos direitos à vida, à liberdade e à propriedade; Montesquieu, formulador da teoria da separação dos poderes; e Voltaire, implacável crítico da intolerância religiosa. Também Francis Bacon e René Descartes lançaram as bases do método científico e do racionalismo moderno.
Essas ideias marcaram a transição para a Idade Contemporânea, inaugurando uma nova forma de compreender o mundo e estabelecendo a convicção de que a razão poderia resolver os grandes problemas da humanidade. No entanto, é inevitável perguntar: estamos retrocedendo?
Sob a influência da extrema direita, o mundo tem assistido à revalorização do autoritarismo, do dogmatismo e do fundamentalismo religioso.
É o anti-iluminismo contemporâneo, que nega a razão e a ciência, desqualifica o debate e impõe verdades arbitrárias. Seus ideólogos rejeitam a aliança entre a racionalidade e a justiça social, substituindo o pensamento crítico por convicções imutáveis e intolerantes.
As democracias liberais, embora imperfeitas, representam conquistas civilizatórias inegáveis. Ainda assim, há quem as veja como decadência, idealizando um passado em que a autoridade se sobrepunha à liberdade. Esse discurso reacionário sustenta-se em um falso moralismo, no elitismo e na negação da história que não reproduz seus dogmas.
Bertrand Russell alertava: “agir de forma dogmática, acreditando que a verdade é monopólio do próprio partido, pode ser causa de grandes monstruosidades”. O avanço do anti-iluminismo em escala global é, de fato, uma ameaça civilizatória. No Brasil, resistir a essa onda obscurantista é uma tarefa que exige coragem, lucidez e compromisso com os valores da razão e da liberdade.
Rui Leitão

